Um ex-militar do Exército, de 46 anos, foi gravemente ferido na cabeça por um disparo de arma de fogo na noite da última quarta-feira (12), em sua residência no Jardim Noroeste, em Campo Grande. A principal linha de investigação aponta para uma trágica confusão de identidade, onde a vítima teria sido alvejada por engano, sendo confundida com seu irmão, de 47 anos, que possui um histórico de envolvimento com facções criminosas e estava em regime de livramento condicional. O incidente chocou a vizinhança e expôs a brutalidade da rivalidade entre grupos criminosos na capital sul-mato-grossense.
A Dinâmica do Ataque e a Suspeita de Confusão Fatal
No momento do ataque, o ex-militar estava sentado de costas no portão do imóvel, uma posição que, segundo a polícia, pode ter contribuído para o erro fatal. A versão de que ele foi confundido com o irmão foi apresentada pelo próprio homem, que relatou às autoridades ter sido um ex-integrante do PCC (Primeiro Comando da Capital). Devido ao seu passado no crime organizado e ao fato de estar em liberdade condicional, o irmão acreditava ser o verdadeiro alvo de um ataque orquestrado pelo grupo rival, o CV (Comando Vermelho). A semelhança física entre os irmãos é um fator crucial nessa hipótese, transformando a vida de um homem trabalhador em um cenário de violência inesperada.
O Resgate e o Grave Estado de Saúde
Após ser atingido, a vítima foi prontamente socorrida pela cunhada, que o levou ao CRS (Centro Regional de Saúde) Tiradentes. Contudo, devido à gravidade do ferimento – o disparo atingiu a cabeça e resultou em perda de massa encefálica –, o ex-militar precisou ser transferido para a Santa Casa de Campo Grande, onde permanece em estado crítico. A rapidez no atendimento foi fundamental, mas a extensão dos danos cerebrais levanta sérias preocupações sobre sua recuperação.
O Cenário do Crime e o Testemunho da Vizinhança
Na manhã seguinte ao crime, a equipe de reportagem do Campo Grande News esteve na residência da família, mas não encontrou ninguém no local. O quintal da casa ainda carregava os vestígios da noite de terror: duas garrafas de cerveja, um carrinho de bebê e diversas peças de roupas penduradas no varal ou espalhadas pelo chão, uma delas visivelmente manchada de sangue. Na calçada, uma marca de sangue reforçava a brutalidade do ocorrido. Vizinhos, abalados, descreveram o ex-militar como uma pessoa “muito tranquila e trabalhadora”, que, apesar de não morar fixamente no local, estava sempre presente. A comunidade local se mostrou surpresa e consternada, reforçando a crença de que ele não era o alvo dos atiradores. “Ele é um cara super tranquilo, não tem nada de ‘tranqueira’. A rua aqui sempre foi sossegada, nunca aconteceu esse tipo de coisa, apesar da fama do bairro”, relatou uma moradora que preferiu manter o anonimato, evidenciando o choque da comunidade diante da violência.
O Histórico do Irmão: Uma Vida Marcada Pelo Crime
O irmão da vítima, apontado como o provável alvo do ataque, possui um extenso histórico criminal. Natural de Corumbá, ele acumula uma pena total de 31 anos e 4 meses na Justiça, estando em livramento condicional desde o mês passado, por decisão da 2ª Vara de Execução Penal de Campo Grande. Sua trajetória no mundo do crime inclui passagens por diversas infrações, culminando em uma vida de reclusão e liberdade condicional sob estritas obrigações.
O Homicídio em Cuiabá (1997)
Entre os crimes mais graves em seu histórico, destaca-se um homicídio qualificado praticado em 1997, no Centro de Cuiabá (MT). Documentos revelam que o homem, que trabalhava como pintor, foi condenado pelo Tribunal do Júri pelo assassinato de um cobrador de táxi-lotação. O crime ocorreu em 24 de julho de 1997, por volta das 14h, na Rua 13 de Junho, ao lado do prédio dos Correios. A denúncia do Ministério Público de Mato Grosso detalha que ele, acompanhado de um grupo, tumultuava um ponto de ônibus. Ao ser repreendido pelo cobrador para desimpedir a entrada de passageiros, o agressor sacou um revólver e efetuou cinco disparos, atingindo a vítima quatro vezes pelas costas. Após o crime, ele fugiu para Campo Grande, onde foi preso no 1º Distrito Policial e recambiado para a capital mato-grossense. Em setembro de 1998, foi julgado e condenado a 16 anos de prisão em regime fechado.
Outras Condenações e o Livramento Condicional
Além da condenação por homicídio, o histórico do irmão da vítima inclui outras penas por crimes como roubo e lesão corporal, somando mais de três décadas de prisão. Após cumprir parte da pena em regime fechado e obter a progressão para o semiaberto em agosto de 2017, a Justiça deferiu o livramento condicional em 7 de julho de 2026. Entre as obrigações impostas para manter a liberdade, ele deveria comprovar ocupação lícita em até 30 dias, recolher-se em sua residência até as 20h diariamente e comparecer periodicamente ao Patronato Penitenciário.
A Identidade Trocada: Um Precedente Perigoso
Um incidente anterior, em 2017, já havia demonstrado a perigosa confusão de identidades entre os irmãos. Naquela ocasião, o irmão criminoso utilizou o documento do ex-militar durante um furto em um supermercado atacadista no Bairro Coronel Antonino, em Campo Grande. Ele foi preso em flagrante junto com outros dois homens, após agredir um funcionário do local e tentar tomar sua arma, chegando a ser baleado no pé. Posteriormente, confessou ter usado o documento do irmão, que não possuía passagens pela polícia, para evitar o registro em seu próprio nome. Por esse episódio, foi denunciado e condenado a seis meses de detenção. Esse precedente ressalta como a identidade do ex-militar já havia sido indevidamente utilizada, culminando agora em uma tragédia que quase lhe custou a vida.
O caso segue sob investigação das autoridades de Campo Grande, que buscam identificar os responsáveis pelo ataque e esclarecer os detalhes da confusão que levou um homem inocente a ser vítima de uma guerra de facções. A comunidade aguarda respostas e justiça para o ex-militar, cuja vida foi drasticamente alterada por um erro fatal.
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