A crise no atendimento da Santa Casa de Campo Grande, o maior hospital de Mato Grosso do Sul, ganhou um novo e sério desdobramento. A Defensoria Pública do estado decidiu levar o caso a instâncias federais, acionando o Departamento Nacional de Auditoria do SUS (DNASC/SUS) e o Tribunal de Contas da União (TCU). O objetivo é investigar de forma aprofundada o uso de recursos federais e a complexa situação que se desenrola dentro da instituição, após uma inspeção revelar um cenário considerado crítico e insustentável.
Cenário Crítico e Desdobramentos da Inspeção Federal
A iniciativa da Defensoria Pública, divulgada nesta sexta-feira (10), é resultado direto de uma vistoria minuciosa realizada no último mês. A inspeção expôs um panorama alarmante, onde pacientes são submetidos a esperas de semanas por cirurgias vitais, enfrentam o cancelamento abrupto de procedimentos já agendados e, em casos mais graves, há relatos de óbitos que poderiam estar diretamente relacionados à demora e à precariedade da assistência. Tal quadro é ainda mais grave diante do volume de aproximadamente R$ 53 milhões em repasses federais destinados à instituição somente até março deste ano, levantando questionamentos sobre a eficácia de sua aplicação.
Relatos Alarmantes e Falhas Estruturais Constatadas
Durante a fiscalização, a equipe da Defensoria ouviu 46 pacientes, cujos depoimentos convergiram para um padrão preocupante de deficiências. Foram documentados casos de internações prolongadas sem a devida avaliação por médicos especialistas, pacientes mantidos em jejum por dias a fio aguardando cirurgias que não se concretizam, e a prática de decisões médicas sendo tomadas à distância, muitas vezes via aplicativo. A falta de informações básicas sobre diagnóstico e tratamento também foi uma queixa recorrente. Além disso, a inspeção flagrou deficiências na infraestrutura, como falta de climatização, mobiliário danificado e falhas graves de higiene, elementos que comprometem a qualidade do cuidado e a segurança dos internados.
A gravidade da situação é ilustrada por casos concretos: uma paciente esperou mais de 20 dias por uma cirurgia cerebral urgentíssima, tendo seu procedimento realizado somente após intervenção direta da Defensoria. Outros pacientes aguardam por meses, e até anos, a remoção de materiais cirúrgicos, uma demora que eleva o risco de infecções. Há o registro de uma morte por infecção generalizada que pode estar ligada à procrastinação desse tipo de procedimento. Paralelamente, especialidades cruciais como a ortopedia encontram-se em estado de virtual paralisação, com cirurgias suspensas em massa devido à falta de pagamento às equipes médicas.
A Busca por Transparência e a Visão dos Gestores
A Defensoria Pública é enfática ao afirmar que o cenário atual não pode ser tratado como normal, cobrando investigação rigorosa sobre a aplicação dos recursos e a gestão do hospital. A expectativa é que o DNASC/SUS e o TCU apurem irregularidades e apontem responsabilidades. Essa ação se soma à auditoria da Controladoria Geral do Estado (CGE), que, desde janeiro, subsidia a Secretaria Estadual de Saúde (SES) nas decisões e na elaboração de uma nova proposta de contratualização com o hospital, processo que será conduzido pela Secretaria Municipal de Saúde (SESAU).
O secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, já havia alertado sobre o “problema do financiamento do hospital”, atribuindo-o ao crescimento populacional sem o devido planejamento da rede de atendimento. Ele defende a desconcentração de serviços complexos, mencionando a ampliação da oferta de ortopedia no Hospital do Pênfigo e o atendimento de oncologia infantil no Hospital do Câncer como medidas para aliviar a Santa Casa. Por sua vez, a Santa Casa queixa-se da desatualização da tabela do SUS e já ingressou na Justiça em busca de correção de valores. A instituição apresentou um plano de reestruturação de R$ 60 milhões no ano passado e relata dificuldades financeiras extremas, com déficit e dívidas que dificultam a compra de medicamentos e o pagamento de equipes.
O Posicionamento Oficial da Santa Casa
Em nota encaminhada à reportagem do Jornal Alvoradense, a Santa Casa de Campo Grande esclareceu que a auditoria anunciada pelo Governo do Estado e pela Prefeitura possui caráter essencialmente contábil. A instituição informou que, até o momento, não há equipes atuando presencialmente em suas dependências, tendo sido solicitados apenas documentos e informações pertinentes, os quais, segundo a nota, já estão sendo devidamente disponibilizados às autoridades competentes.
A mobilização dos órgãos federais na crise da Santa Casa de Campo Grande marca um ponto de virada crucial na busca por soluções. A expectativa é que as investigações tragam clareza, apontem responsabilidades e garantam que o direito à saúde da população sul-mato-grossense seja plenamente assegurado, reconstruindo a confiança na principal unidade hospitalar do estado. Continue acompanhando o Jornal Alvoradense para se manter informado de todas as notícias da região.



